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onthewrittenroad

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28
Mar21

150 km depois

Joana C. C. Messias

Este é o relato de uma das minhas viagens, não de uma qualquer, mas da mais despreocupada de todas.

A começar pela preparação:

  • pegar num mapa, ver a distância a percorrer e o tempo do qual dispunha. Calculei que em cada dia conseguiria fazer, em média, 20km;
  • pegar num guia sobre o Caminho  (atenção que há dois anos guias práticos eram poucos!) e ver as diferentes etapas, para decidir o ponto de partida;
  • procurar os albergues de peregrinos e ter uma ideia sobre as suas localizações;
  • pegar numa mochila e colocar o mínimo e indispensável, duas (ou três) mudas de roupa, botas de caminhada e saco-cama (extremamente importante! Descobri só quando cheguei a Ponte de Lima.)
  • comprar um bilhete de comboio para o Porto, levantar a minha credencial de peregrino, junto à Sé do Porto e seguir viagem!

Munida de tudo o que era necessário, a minha chegada a Ponte de Lima foi interessante: ao final da tarde, atravessei a ponte e instalei-me no Albergue para peregrinos. Jantei na casa imediatamente à frente e ali encontrei o meu primeiro companheiro do Caminho (ainda não o sabíamos), um alemão  - o Roman, que se disponibilizou a traduzir a ementa que se encontrava em português 

                 Ponte de Lima - Rubiães:

Eram sete horas quando se começou a ouvir o restolhar de malas e os outros peregrinos a começarem a sua preparação. Eu calcei as botas e lá comecei esta aventura, com um dia de sol lindo. Ia dali para Rubiães.

As primeiras impressões foram extremamente positivas: a luz da manhã e a temperatura que se anunciava alta, faziam adivinhar um caminho tranquilo. Passei por várias propriedades, com as vinhas, atravessei estradas, cumprimentei bois e cheguei a Rubiães. Fui recebida por um pequena igreja, de S. Pedro de Rubiães, que serviu para me recordar do que  por ali andava a fazer e retornar uns quantos séculos atrás. Localizei o albergue, fiz o check-in, negociei para conseguir fazer o pagamento sem ter que ir até à povoação (depois de 18km, não me apetecia andar mais 4km!). Consegui, comi e fui dormir.

                 Rubiães - Tui:

Novamente, o despertar foi matutino, iniciar o dia cedo é como que estabelecer a energia para o resto do dia. Segui por antigas vias romanas, ouvi pequenas quedas de água e os passarinhos, até chegar a Valença. Percorri o interior da Fortaleza, que me recordou o quão próximo estava da fronteira. Depois de comer num pequeno restaurante, peguei na bagagem e fui em direção à fronteira, atravessei a ponte sobre o rio Minho e cheguei ao meu novo destino: Tui. O albergue está localizado num antigo edifício de pedra, instalei-me e rapidamente fui até ao centro, abastecer-me (comida, sempre importante!) e ver o movimento, na praça central. Encontrei vários peregrinos, nomeadamente o Roman e depois o Mark, ambos alemães, a viajarem sozinhos. Comemos na praça, uma espécie de picnic e fomos descansar.

                 Tui - Redondela:

Este dia foi diferente, o Mark seguiu esta etapa comigo, sabendo que cada um tem o seu ritmo e respeitando-nos. Isto é, o ritmo de cada um é o que dita o sucesso do caminho, sem pressas, sem incómodos, sem obrigações, mas ouvindo-nos e aquilo que as pernas são capazes de concretizar. Assim, ele seguiu mais à frente e eu um pouco mais atrás. Até que, olho para o lado, vejo um cavalo e alguém a fazer festas ao dito bicho - era o Roman. A partir daqui, aceitei que teria companhia para o percurso. E lá seguimos, cada um com as suas reflexões, a desfrutar do caminho, pelo meio da mata, com subidas e descidas, uma etapa dura, ao sol, pela estrada. E aparece Redondela. Os três instalamo-nos no albergue e rapidamente decidimos que iríamos até à praia, não muito longe. Chamamos um táxi, relaxamos na praia e terminamos num restaurante a comer marisco! 

                 Redondela - Pontevedra:

Confesso que deste dia pouco ficou registado na minha memória, mas recordo-me perfeitamente da entrada em Pontevedra. Em grande, um final de tarde, com calor. Desta vez, optei por não ficar no albergue, fui até uma pensão, no centro da cidade. Depois de descansar, segui até à Plaza de la Herreria e desfrutei de umas tapas, com companhia, música e todo aquele ambiente de festa, que se vive em Espanha, ao final de tarde, e que nos envolve e dá vontade de voltar!

                 Pontevedra - Caldas de Reyes:

A entrada em Caldas de Reyes foi interessante. Não sabia o que esperar, uns quantos edifícios abandonados, umas publicidades estranhas, até que atravessei a ponte e me embrenhei pela parte mais antiga. Ali aluguei rapidamente um apartamento, apanhei sol e fui com o Roman até ao restaurante próximo da ponte para mais umas tapas, com música ao vivo. Até cantaram "Cheira bem, cheira a Lisboooaaaa", uma verdadeira festa, regada com vinho, pimentos padrón, queijo e pão! 

                 Caldas de Reyes - Padrón:

Esta penúltima etapa foi mais fechada, habituamo-nos ao ritmo dos dias, ao percurso e a mente fica focada na chegada a Santiago. Foi sobretudo um período de reflexão, daquilo que pretendia mudar, do que me proporia a fazer dali para a frente. Assim, cheguei ao albergue e fui descansar imediatamente, para começar cedo a última etapa, no dia seguinte.

                 Padrón - Santiago:

O dia começou bastante cedo e, deste vez, comecei sozinha. Comi um croissant na tasca do Pepe e segui à beira da estrada até que o caminho passou a ser de terra. Confesso que o início do Camino, a paisagem foi muito mais prazerosa, no entanto a proximidade ao destino final valia tudo. A certo ponto começamos a ver as torres sineiras de Santiago e sabemos que estamos cada vez mais próximos. Após uns quantos enganos, ao entrar em Santiago, a vieira ou a seta amarela manteve-se até ao fim e chega-se à Plaza del Obradoiro e é o sentimento de missão cumprida (e comprida!), que fica espelhado na nossa memória e no sorriso:

 

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25
Jun20

7º de sete - Gastronomia

Joana C. C. Messias

As viagens não são só feitas de paisagem, monumentos e história.

Há que juntar os momentos que nelas experienciamos, para que  nos fiquem gravadas na memória. Uma das formas mais simples, para isso, é através da comida. Os produtos e sabores característicos de cada região, conferem-lhes um momento que dificilmente se repetirá noutro local.  Além disso, a proximidade com a terra, permite a obtenção de produtos de uma qualidade genuinamente superior, que se revelam no momento da degustação.

Tendo em conta os diferentes locais, deixo um apanhado de alguns dos pratos e produtos provados:

  1. Queijo Terrincho: este tipo de queijo é produzido com leite cru de ovelha Churra, caraterizando-se por possuir uma pasta dura a semi-dura, com uma cor branca a amarelada. O tempo de maturação é de 30 dias, sendo que o Terrincho Velho é até 90 dias. Este queijo destingue-se pelo modo como as ovelhas são criadas, em regime extensivo, nas pastagens da área montanhosa da Terra Quente. O produto obtido pesa cerca de 800 a 1200g, com 13 a 20 cm de diâmetro. O sabor, bem como o aroma são sobretudo suaves.
  2. Presunto de Chaves: o porco Bísaro é o utilizado, havendo todo um cuidado na preparação da carne durante a vida do animal. O corte da carne é particular, podendo-se distinguir por ter uma forma mais arredondada. No fumeiro, é colocado à parte de outros enchidos, para que não tenha um sabor em demasia, entre vários meses a um ano. O presunto que se obtém é pouco fibroso, macio, vendo-se a gordura brilhante, o que lhe confere um delicioso sabor.
  3. Posta Mirandesa: naco de carne de raça bovina mirandesa, cuja vida é passada nos lameiros, em altitudes superiores a 500m. A carne é cortada de forma singular, evitando os nervos, com uma altura de 2 a 3cm. Temperada com sal grosso, metida nas brasas até o suco começar a dar de si. Servida com batatas, da região (deliciosas!) e grelos.
  4. Pastel de Chaves: pastel em forma de meia-lua, feito com massa folhada, estaladiça, recheado com carne de vitela. A macieza da massa, bem como a qualidade da carne utilizada são vitais para a boa qualidade do pastel. 
  5. Covilhetes: aparentam ser empadinhas de carne. A massa é ligeiramente diferente do pastel anteriormente descrito, contendo menos humidade; o recheio é feito, essencialmente, com carne de vaca. Tem a particularidade de ser colocado no forno em barro negro de Bisalhães.
  6. Cristas de Galo: pastéis em forma de meia-lua, sendo uma parte recortada, fazendo lembrar a crista de um galo. O recheio é feito com açúcar, amêndoa, toucinho, ovos, maçã ácida e canela.

Acrescentem à entrada, um bom pão de centeio, com o azeite da região, um bom vinho e garanto que quererão voltar! 

 

24
Jun20

6º de Sete - Chaves

Joana C. C. Messias

 

A Chaves chega-se através da "interessante" (na realidade, não podia ter mais curvas!) EN103, vindo de Bragança e o panorama não podia ser mais bonito: um céu rosa, de fim de tarde, com o vale do Tâmega a abrir-se adiante.

A cidade tem, também ela, qualquer coisa. O seu centro histórico organizado, consegue conciliar a modernidade dos tempos, com a manutenção do património histórico.

Por este motivo, ainda que disfarçada sobre a aparência da contemporaneidade, as fundações da cidade remontam ao período da romanização, que permitiriam a fixação de população e o desenvolvimento do local que hoje conhecemos.

 

Aquae Flaviae, localizada nas margens do rio Tâmega e no fértil vale deste mesmo rio, reunia as condições ideais para a fixação de um povoado, rodeada por algum relevo, que permitia a construção de pequenos oppidums para vigia dos arredores. As infra-estruturas criadas procuraram integrar a cidade no Império Romano, nomeadamente com a criação de uma estrada romana, que ligava Bracara a Astorica. Foi para dar continuidade a este percurso que a ponte foi erguida, na transição do século I para o II, durante o período do imperador Trajano (98 -117 d. C.). A estrutura tinha mais arcos do que os que estão à vista, contudo a passagem do tempo, bem como a realização de obras (as últimas das quais na década de 30), conferiram-lhe o aspeto que hoje tem.

Não muito distante da ponte, encontra-se a zona das termas, criadas para aproveitamento das águas quentes das Caldas de Chaves, fundadas na época de Vespasiano (69 - 79 d. C.). A propósito do aproveitamento dos efeitos medicinais destas águas, Aquae Flaviae é fundada. Hoje, é possível visitar o Museu das Termas Romanas.

Percorrendo o centro histórico, percebem-se ainda vestígios do traçado medieval. As ruas são estreitas e entrecruzam-se, ladeadas com casinhas de dois pisos, umas juntas às outras, sendo o piso superior composto por uma pequena varanda, muitas das vezes decorada com flores. Os pisos inferiores, muitos deles, foram reaproveitados e estão ocupados com comércio. 

No cimo da Rua Direita, a Igreja de Santa Maria Maior. Crê-se que o edifício tenha sido edificado após a conquista de Chaves em 1160, por dois cavaleiros - Rui e Garcia Lopes, aos mouros. Assim, caracteriza-se pelo estilo românico, característico do século XII. Várias intervenções ocorreram, nomeadamente durante o reinado de D. João III, já no século XVI, conferindo-lhe o aspeto que hoje tem, com o seu pórtico renascentista (vendo-se ao lado esquerdo o pórtico românico).

Na Praça Camões, que se abre diante da Igreja de Santa Maria Maior, são vários os locais que merecem ser explorados: a Igreja da Misericórdia, do século XVIII; o Museu da Região Flaviense; a Câmara Municipal. Por trás do Museu, destaca-se a torre do Castelo de Chaves. 

Do castelo, resta apenas a Torre de Menagem, que pelo aspeto e os diferentes vestígios permitem reconhecer os trabalhos desenvolvidos durante o reinado de D. Dinis, quando Chaves detinha uma posição vital para a defesa do território nacional e as condições para que uma comunidade forte se tivesse desenvolvido. Daquele local, avista-se todo o vale de Chaves.

21
Jun20

4º de Sete - Murça

Joana C. C. Messias

Certamente que ao mencionar-se Murça, imediatamente vem à mente o conhecido nome "Porca de Murça", referente ao vinho ali produzido. E isso bastaria para ser considerada uma das (minhas) sete maravilhas transmontanas.

Mas não! Vou até Murça, porque de uma forma descomplicada, através de uma lenda, pode-se entender a ligação telúrica que percorre toda a região.

Conta-se que na Idade Média, um porco, maior do que tantos outros, tomava de assalto a povoação, comendo e roubando tudo o que podia, não se deixando apanhar. Até que um fidalgo, conseguiu capturá-lo, pondo fim ao medo que todos tinham do animal.

Ora, o facto é que, lendas à parte, esta è uma figura que se encontra presente em vários locais do nordeste de Portugal e está associado a um culto que remonta à ocupação de tribos pré-célticas - os Vetões e Draganos, presentes nos territórios correspondentes a Trás-os-Montes, Beira Alta e regiões de Espanha.

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O nome berrão refere-se aos porcos não castrados, geralmente, pertencentes a uma aldeia e que estavam encarregues da cobrição. São várias as lendas que se referem a estas figuras, pelas variadíssimas esculturas que foram encontradas ao longo do século XX, pelos territórios já mencionados. 

A figura em si, é esculpida num bloco único de granito, com o focinho e o órgão sexual a destacarem-se, com as quatro patas paralelas. São, naturalmente, figuras toscas, atestando não só a sua idade (podendo remontar à Idade do Ferro.), mas também à dificuldade de trabalho do material em questão. Pelo nome, assume-se que a representação se referia ao porco de cobrição, das aldeias, no entanto estudos revelam que poderia ser um javali, touro ou até um urso.

Várias são as interpretações destas figuras, não só pelos diferentes contextos em que são encontradas, mas também pelos diferentes detalhes que por vezes apresentam. 

Os berrões seriam colocados na entrada dos castros, para proteção dos locais, funcionando como deidades, que tinham o poder de afastar o mal; noutros casos, serviriam como símbolos de demarcação de territórios; e, por último, reforçando a sua função protetora, como figuras que protegiam o gado, nos pastos. Mais tarde, foram adaptadas e,  por vezes, encontram-se associadas à administração do poder local, ocupando locais de destaque, nas praças centrais ou estando anexadas aos pelourinhos (caso de Bragança).

Ao todo, em Portugal, foram localizados cerca de 74 destas peças, algumas delas encontram-se hoje em museus, outras estão expostas em locais centrais, sendo o caso de Murça e, dos locais visitados, também Bragança, onde o berrão está incluído no pelourinho. 

Independentemente dos significados que lhe foram atribuídos, com o passar dos séculos, o facto é que o porco/javali/touro/urso contribuiu para o reforço da identidade das comunidades que se juntam à sua volta e reforçando o sentido de unidade dos lugares.

 

 

 

 

 

 

 

11
Jun20

3º de Sete - Mirandela

Joana C. C. Messias

Mirandela é bela, mas Mirandela não pára!

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Na realidade, podia ter escolhido outro ponto transmontano, uma vez que o motivo para destacar Mirandela está diretamente relacionado com um pecado: a gula. 

Por toda a região de Trás-os-Montes, os enchidos de fumeiro são conhecidos. A tradição relacionada com a sua produção remonta a tempos primitivos, quando o Homem desenvolveu diversas técnicas que permitiam a conservação da carne durante um longo período de tempo. Carne essa proveniente sobretudo do porco, na época do Natal ou por Janeiro, quando o frio colaborava com o arranjo da carne e permitia a produção, artesanal, de vários enchidos. Hoje em dia, o destaque vai para o Presunto de Chaves, a Chouriça de Vinhais, Alheira do Barroso, Butelo, Morcela, Salpicão...

A lista é vasta e os sabores são muitos. No entanto, a criação da alheira insere-se num contexto histórico mais complexo. 

Durante o século XV, a tumultuosa relação entre o rei e os judeus que habitavam na Península Ibérica, teve o seu auge, quando em 1496, D. Manuel I obriga à conversão de todos os judeus ao catolicismo. Muitos foram os que, apesar do batismo, se mantiveram fiéis à Lei de Moisés. Os Criptojudeus ou Cristãos - novos, mantiveram em segredo as suas tradições, nomeadamente as que diziam respeito à dieta.

Pelos Livros Levítico  e Deuterónimos, a dieta kosher proíbe o consumo de alguns alimentos, como o da carne de porco. Ora sendo tradição secular, conforme referido acima, o abate do porco e aproveitamento da sua carne para os enchidos, foi necessário encontrar uma solução, para que os vizinhos não os denunciassem. É, deste modo, que criam uma receita à base de carne de aves, pão e especiarias, que pela aparência se assemelha a um enchido de porco. 

Assim, caso fossem alvo de alguma acusação, por parte dos vizinhos, estando os seus costumes de acordo com os dos restantes, não poderia ser através da sua dieta que levantariam suspeitas.

Importa salientar que, a instauração da Inquisição em Espanha, levou à fuga de muitos judeus para o território português, sobretudo durante o reinado de D. João II. Estes acabariam por se instalar nas regiões de fronteira, como Trás-os-Montes, as Beiras e o Alentejo.

No entanto, Mirandela é mais do que o conhecido local de produção das Alheiras. Ali encontramos a ponte que atravessa o rio Tua e nos leva até ao imponente solar, outrora pertencente à família dos Távoras. Mas esta é outra história, fica para depois.

Além dos enchidos, ali encontram-se tantos outros produtos que são provenientes da região: as amêndoas (outra maravilha, visitar Trás-os-montes, na época das amendoeiras em flor!), os figos, as castanhas, o queijo, o vinho. Devido à concentração de todos estes produtos em Mirandela, cria-se uma via que permite o escoamento dos mesmos até à foz do Douro, no final do século XIX e mais tarde prolongada até Bragança. É a Linha do Tua, que está a aguardar a sua reactivação.

 

07
Jun20

2º de Sete - Rio de Onor

Joana C. C. Messias

Ai, como eu queria chegar a Rio de Onor!

Não pensem que são demasiadas horas, estando por Bragança, cerca de 30 minutos são suficientes para viajar no tempo e aterrar nesta aldeia. Considerada recentemente como uma das Sete Aldeias Maravilha de Portugal e localizada no Parque Natural de Montesinho, o seu isolamento pode ser visto como uma desvantagem, por alguns, no entanto a preservação de várias características que a distinguem, revelam o contrário.

2. Rio de Onor

 

A aldeia de Rio de Onor tem várias particularidades, que a tornam única.

A primeira o ser atravessada pela fronteira, com Espanha, denominando-se o lado espanhol de Rihonor de Castilla (embora esteja localizado na região de Leão), distinguido os habitantes os dois lados como "povo de acima" e "povo de abaixo".

A segunda, prende-se com o sistema que vigora: o comunitarismo. As raízes do mesmo remontam, provavelmente, ao período celta, tendo-se mantido ao longo dos tempos, em grande parte devido ao isolamento a que a aldeia está votada. Através do comunitarismo agro-pastoril (estudado por Jorge Dias, na década de 50) organizam-se as terras - faceira, como é designada - distribuindo-as por todos, sendo trabalhada segundo uma ordem, por aqueles que foram nomeados para o efeito, através da Vara da Justiça; o rebanho comunitário era comum ver-se regressar ao final de cada dia, acompanhado pelas gentes da aldeia; o touro da aldeia, hoje existindo apenas menção à "Casa do Touro", um espaço cultural que divulga as tradições; o forno de lenha, utilizado por todos; a existência de um grupo de habitantes, pertencentes à Vara da Justiça, responsáveis por decidir os destinos da aldeia. No fundo, esta era uma organização que visava o bom funcionamento da aldeia, de igual forma para todos, tendo em vista a auto-suficiência, através da distribuição de esforços e partilha dos poucos bens existentes.

Além do comunitarismo, o aspeto da aldeia destaca-se. São casinhas feitas de xisto escuro, com dois pisos. O piso inferior, onde se mantinham os animais e o que era colhido da terra e, o piso supeior, destinado a habitação da família. Hoje em dia,o aspeto mantêm-se, as casas distribuem-se numa e noutra margem do rio, que dá o nome à povoação. Distinta é também a igreja matriz, dedicada a S. João Batista, com o costumado aspeto transmontano, cuja fachada é encimada por uma torre sineira. Mais adiante, no "povo de acima", uma igreja de características semalhantes, no entanto pertencente à parte espanhola.

A frescura e o som da água a correr funcionam como efeito criador de um espaço verdadeiramente tranquilo, onde o ritmo é coordenado pela luz do sol.

 

01
Jun20

1º de Sete - Miranda do Douro

Joana C. C. Messias

Muito tenho falado sobre a região transmontana, com descrições da sua paisagem, que por si só vale a pena a visita, no entanto o património material e imaterial que ali se encontra reunido, acrescenta ainda mais.

Destaquei sete dos lugares percorridos.

  1. Miranda do Douro:

     

A localização de Miranda do Douro é privilegiada, localizada entre os rios Douro e Fresno, numa ligeira elevação. No entanto, a calmia do curso dos rios que por ali passam é semelhante àquela que se vive no interior das muralhas da antiga vila.  
Parte da estrutura do castelo ainda hoje sobrevive, ainda que danificada, com destaque para a torre de menagem gótica, junto ao pano de muralhas. Este, por sua vez, desenvolve-se em torno de toda a vila, fundada no ano de 1287, durante o reinado de D. Dinis. Desta forma, atesta-se a importância das construções militares em zonas de fronteira, num momento tão importante para a definição do território português, designadamente com a assinatura do Tratado de Alcanices, alguns anos mais tarde.
São ainda três as entradas para a vila, que subsistem. A principal, hoje, conhecida como Antiga Porta de Entrada na Vila, ainda ladeada por duas torres, permite o acesso à Rua da Costanilha. Principal eixo da vila mirandesa, que desemboca na Praça D. João III. Sendo esta a rua mais antiga, as construções que a ladeiam têm um particular interesse, no que à arquitetura medieval diz respeito, não só pelo material utilizado - blocos graníticos, mas ainda pelos interessantes detalhes que revelam algumas histórias do foro privado, da Idade Média, através da observação dos modilhões com figuras esculpidas.
Na Praça D. João III, o centro cívico de Miranda do Douro, encontra-se o edifício que atualmente alberga o Museu da Terra de Miranda e, no centro da praça, a escultura que representa um casal trajando as Capas de Honras.
Não muito distante, encontra-se a Concatedral de Miranda do Douro, cuja construção se fica a dever ao rei D. João III, que a eleva à categoria de cidade e de diocese, no século XVI. Contudo, no século XVIII, devido à guerra com Espanha, o bispo decide mudar-se para a cidade de Bragança, fixando definitivamente esta como a nova diocese. O Vaticano, numa tentativa de apaziguar rivalidades, concedeu o título de Concatedral à Igreja de Miranda do Douro. No interior da mesma, destaca-se, à direita a figura do Menino Jesus da Cartolinha, sobre o qual existem várias lendas, a principal refere que na guerra contra os espanhóis, no século XVIII, teria aparecido um menino, vestido  de fidalgo, nas muralhas a lutar e a apelar a que se lhe juntassem. Deste menino ninguém mais soube e, por isso, a sua imagem foi colocada no interior da igreja. 
Naturalmente que ao passeio pelo centro histórico e à visita dos diferentes locais, junta-se uma particularidade, o facto de aqui se falar a segunda língua oficial existente em território nacional - o mirandês. Além disso, a gastronomia não pode deixar de ser referida, com a possibilidade de comer a posta mirandesa, in loco, ou a bola doce de Miranda.
 

28
Mai20

Trás-os-Montes, guiada por Saramago (Parte II)

Joana C. C. Messias

Trás-os-montes céu.jpeg 

Às vezes começa-se por o que está mais longe. 

Embora se aviste Bragança, segue-se até Rio de Onor, passando por Gimonde, Baçal, Aveleda, Varges, pequenas aldeias, que são uma introdução para aquilo que nos espera mais adiante.

Após percorrer alguns quilómetros do Parque Natural de Montesinho, eis que se chega a uma aldeia, que a julgar pelo aspeto, parece parada no tempo. Mas desengane-se quem a visita, se pensa que é por esse motivo que é menos merecedora de atenção.

Eis Rio de Onor. Dobrou-se uma curva, aparece entre as árvores um luzeiro de água, ouve-se um restolhar líquido sobre as fragas, e depois há uma ponte de pedra.

Um grupo de pessoas trabalha em conjunto. Observam-se as casas que estão à beira do rio, e apesar da pedra escura utilizada para as construções, alguns detalhes coloridos, como um baloiço, as flores, dão uma leveza ao local inesperada. Percorre-se a aldeia a pé, atravessa-se a ponte, admirando a fachada da pequena Igreja Matriz, retorna-se por outra ponte mais acima, com muita calma, que é o que o local pede.

Às portas de Bragança, começa a chover. (...) e o viajante tem de refugiar-se no Museu do Abade de Baçal.

Felizmente, nem sinais de chuva.

Ao chegar a Bragança, o percurso faz-se do ponto mais elevado: do castelo, a Igreja de Santa Maria, o Domus Municipalis e o pelourinho. Desce-se, passando pelas portas da vila, chega-se à Igreja de S. Vicente e por trás, então sim, o Museu do Abade de Baçal. Vale a pena a visita pela coleção de escultura e pintura, dispostas de um modo simples e apelativo.

Entre Vinhais e Rebordelo a chuva foi constante. (...) E quando o viajante se aproxima de Chaves já é muito maior o espaço de céu limpo (...) Aliás, bem está que assim seja: a veiga de Chaves não merecia outra coisa.

De Bragança para Vinhais, retoma-se a estrada pelo Parque Natural de Montesinho e são os vales que dominam a paisagem. Vinhais é um óptimo ponto de paragem para se observar a sucessão de relevos, até Chaves. Na parte mais antiga, destaca-se o castelo, com a sua entrada em arco, o pelourinho e o adro da Igreja Matriz, muito próximo a Igreja de S. Facundo de Vinhais.

Não havendo possibilidade de se fazer prova dos enchidos, segue-se caminho até Chaves.

E aqui sim, neste percurso, perdemo-nos. Não literalmente, mas no cenário que se apresenta diante de nós, são vales e serras, com um fundo de céu, que podia ser azul, mas é rosa.

A cidade é maneirinha , quer dizer, pequena na proporção, de bom tamanho para ser bom lugar de viver.

E o que dizer de Chaves? As casinhas arrumadas prolongam-se ao longo da avenida principal, desviando à direita, chega-se ao largo onde está localizada a Igreja de Santa Maria Maior, da Misericórdia, o Museu Aquae Flaviae, a Câmara Municipal e a torre do castelo. Retomando a via principal, chega-se à Ponte de Trajano, com os seus arcos, sobre o rio Tâmega. 

É de facto, uma cidade "maneirinha", que se apresenta organizada e limpa, a que dá vontade de voltar.

Agora é preciso escolher. De Chaves vai-se a todo o lado (...) tanto assim que o viajante se enganou no caminho e meteu pela estrada que segue para Vila Real, por Vila Pouca de Aguiar.

Embora o viajante prossiga por várias outras terras, a direção tomada é para sul, para Vila Real.

Em Vila Real o movimento anuncia que estamos prestes a sair da tranquilidade de Trás-os-Montes. No entanto, vale a pena passear pelas suas ruas e seguir em direção à Avenida Carvalho Araujo. Dali, visitar a antiga Igreja de S. Domingos e admirar a fachada de uma das mais antigas casas, de Diogo Cão. 

Estando em Vila Real impõe-se uma visita: ao belíssimo Palácio Mateus, com os seus jardins e o seu interior riquíssimo, que guarda objetos de outros tempos, pintura, mobiliário, livros.

O primeiro será Mateus, o solar do morgado. Antes de entrar, deve-se passear neste jardim, sem nenhuma pressa. Por muitos e valiosos que sejam os tesouros dentro, soberbos seríamos se desprezássemos os de fora, estas árvores que do espetro solar só descuidaram o azul, deixam-no para uso do céu (...), de repente o viajante cuida ter caído dentro de um caleidoscópio , Viajante no País das Maravilhas.

A viagem prossegue, no sentido do Peso da Régua, mas a paisagem começa já a modificar-se, moldada novamente pelo Douro, avizinhando-se os socalcos que vão conduzir ao Alto Douro. 

O viajante segue, enfim, na direção oposta, enfrentando o Marão e prosseguindo a sua viagem até outras paragens. 

 

 

 

24
Mai20

Trás-os-Montes, guiada por Saramago (Parte I)

Joana C. C. Messias

A propósito da leitura  "Viagem a Portugal", durante este mês de Maio, consegui, finalmente, deixar o meu lar e rumar a terras transmontanas. Foi incrível, por vários motivos: a paisagem, pura e calma, com a natureza de cores terra e flores primaveris, os vales escavados, que deixam entrever algum curso de água, o azul do céu e a frescura da água. Para não falar do património, a vida das vilas e cidades visitadas e da gastronomia. Bom, mas analisemos a viagem descrita, tendo como guia Saramago.

Miranda do Douro - Livro.jpeg

Saramago inicia a sua viagem na fronteira este, entre Portugal e Espanha, em Miranda do Douro.

Vinde cá, peixes, vós da margem direita que estais no rio Douro, e vós da margem esquerda que estais no rio Duero, vinde cá todos e dizei-me que língua é a que falais quando aí em baixo cruzais as aquáticas alfândegas, e se também lá tendes passaportes e carimbos para entrar e sair

Um local onde o Douro deixou a sua marca na paisagem, escavando uma passagem entre arribas abruptas, escuras, conhecido como Parque Natural do Douro Internacional. Ali, Saramago prega o seu Sermão aos Peixes . A propósito da última parte, nem alfândega, nem controlo, a fronteira está ainda encerrada.

Miranda do Douro ergue-se na margem esquerda, com o seu centro histórico impecavelmente limpo, inserido no interior das muralhas. A entrada faz-se pela Porta da Vila, subindo a rua da Costanilha, com as suas casas antigas, algumas com detalhes inesperados. Sobe-se até ao largo, com os antigos solares e numa ruela à direita - passando pela loja da D. Inês "Sabores da Muralha" e parando para provar a bola doce de Miranda - deparamo-nos com o inesperado edificio pertencente à Concatedral de Miranda. No seu interior, a  figura do Menino Jesus da Cartolinha espera pelo visitante.

(...) e antes de se meter ao caminho torna atrás, a Torre de Moncorvo. Não vai deixar desgostos nas suas costas, nem deitaria a vila ao desdém, que o não merece

Segue-se Torre de Moncorvo, ligeiramente a sul - Saramago não seguiu propriamente uma lógica geográfica - , entra-se na vila e passando-se por baixo duma arcada, andando uns passos, vê-se a Igreja Matriz, que causa algum espanto pelas suas dimensões. As diversas ruelas conduzem ao Largo, um espaço aberto, de onde se destaca o edifício da Câmara Municipal.

Já em Mogadouro lá estava (referindo-se à devoção a S. Miguel Arcanjo), num altar das almas, e noutros sítios também, preocupados todos com as probabilidades do purgatório.

Daqui segue-se para norte, até Mogadouro. Mogadouro surpreende pela organização, à entrada, uma zona verde, com o Centro das artes, com uma feição mais moderna. Segue-se até ao Largo Trindade Coelho - sim, ele nasceu aqui-, com o Convento de São Francisco e sobe-se até ao Castelo. Só sobrevive a torre de menagem, que tem por companhia a Igreja Matriz. Vale a pena parar por uns momentos e observar a paisagem à volta: são campos e campos, verdes, dourados, sob um céu azul, por onde se vêem e ouvem as andorinhas. 

No entanto, não é esta a Igreja Matriz mencionada pelo escritor e sim a que fica mais adiante, a do Azinhoso. Essa sim, com personalidade, pois são poucos os vestígios ainda de intervenções de restauro, mantendo o seu aspeto românico, ao estilo transmontano.

A direito para o norte, por estradas de sobe e desce, chega-se a Mirandela.

Mirandela, é apenas um ponto de passagem para Saramago. Vale a pena atravessar a ponte sobre o rio Tua e fazer uma caminhada na margem do rio. Ou perder-se nas variadas lojas com produtos regionais - são os enchidos, os queijos, as amêndoas, os figos, o vinho. Na parte mais alta, destaca-se o antigo Solar dos Távoras, atualmente ocupado pela Câmara Municipal.

Enfim, desta encosta se vê Bragança. A tarde apaga-se rapidamente, o viajante vai cansado. E, nesta situação, padece da ansiedade de todos os viajantes que procuram abrigo. Há de haver um hotel, um sítio para jantar e dormir.

 

 

 

09
Mai20

Achas que...?

Joana C. C. Messias

Geralmente, antes de qualquer ideia que me surja, para ir a qualquer outra parte do mundo - eventualmente porque li um livro, vi um filme, vi um quadro e aquilo criou em mim uma necessidade de ir - vem sempre a pergunta "Achas que vá ... a San Francisco?".

 - "Ó rapariga vai!"

E fui!

“Because in the end, you won’t remember the time you spent working in the office or mowing your lawn. Climb that goddamn mountain.” - Kerouac

Recordo-me, ainda eu trabalhava numa empresa, onde acordava 20 minutos antes de entrar ao trabalho e tinha que picar o ponto (talvez constantemente com um ligeiro atraso, tal o amor que nutria pelas minhas funções!) e algures numa das pausas de 10 minutos que tinha, à conversa, fala-se do "On the road".

O "On the road" foi uma das principais obras escritas por Jack Kerouac, associada à Beat Generation, na década de 50. Não só ele, mas outros autores iniciaram este movimento literário, primeiro em New York, juntando-se mais tarde à outra costa, em San Francisco. As produções desta época, a mim, fascinam-me, pelo corte cultural que se dá: é o pós-guerra, é o aproveitar a vida, é o contrariar os valores culturais estabelecidos do capitalismo e materialismo. É antes o simples prazer de viver, mais adiante,  concretizados em "paz e amor" .

Os meus pais são desta época, talvez por isso, algo tenha ficado no meu ADN e esta necessidade de atravessar o oceano e chegar à costa do Pacífico, me tenha atingido.

“I had nothing to offer anybody except my own confusion.” - Kerouac

Peguei na mala, e segui até Miami, de Miami para San Francisco. 

Cheguei de noite, com roupas de verão - estava em outubro -, subi as escadas do metro e eis que estava na United Nations Plaza, Civic Center. As primeiras impressões são turvas, era de noite, estava frio e tinha fome! Só queria chegar ao sitio onde tinha escolhido ficar. 

Embrenhei-me pelo bairro à direita e rapidamente teci juízos que não foram dos mais encantadores, um bairro com prédios baixos, com escadas de fogo por fora, placares de publicidades antigas e pouca luz e muita, mesmo muita gente a pedir. Estava em Tenderloin. 

Depois de quase ser atropelada por uma bicicleta, cheguei à Pousada da Juventude. Rapidamente fiz o check-in e fui para o meu quarto. Felizmente, estava sozinha e pude descansar. 

Na manhã seguinte, decidi explorar a cidade. Comecei por apanhar um cable car, parte ainda dos serviços de transportes públicos, em direção à Bay Area. A viagem é, por si só, uma aventura. As cabines estão quase sempre cheias, são abertas e agarramo-nos ao que podemos. Enquanto se desloca, subindo e descendo várias colinas (sete inicialmente...), atravessa-se a Russian Hill, Nob Hill. Nestes bairros, várias figuras proeminentes da sociade fixaram residência, na costa oeste, e isto entende-se pela arquitetura, residências mais baixas, que nos permitem avistar a água. Chega-se à Bay Area e a Fishermen's Wharf. Dali vêem-se as pontes (finalmente a Golden Gate, bem lá ao longe!), Alcatraz (não fui, podendo escolher, só visito lugares "bonitos") e os diferentes Piers. 

Com a fome que tinha, tive que parar e provar o caranguejo frito. Continuei, sempre a caminhar, passando por vários restaurantes e zonas de embarque. Toda estas estruturas remontam à chegada dos imigrantes, no século XIX, durante a Gold Rush. O mais conhecido é o Pier 39, que atrai imensa gente. Foi isso mesmo que vi, uma multidão,, atraída pelas luzes, barulho, cheiro a comida, lojas. 

Enfim, rapidamente prossegui pelo "The Bay Trail" e meti-me por um bairro, ficando mais próxima da Torre Coit e da Pirâmide Transamericana (símbolo da cidade), para chegar finalmente ao que tanto me interessava: Beat Generation  Museum. 

Este é um museu totalmente despretensioso, com livros, pautas de música, mobiliário, fotografias, que pretende difundir a principal mensagem desta geração: Tolerância e viver segundo a Verdade de cada um.

Do outro lado da Broadway Street, a Livraria City Lights e imediatamente ao lado o café Vesúvio.

E é este o triângulo dourado que compõe a cena durante a década de 50, sendo todos estes lugares frequentados por Jack Kerouac, Allan Ginsberg, Neal Cassady, Ferlinghetti, William Burroughs.

Missão cumprida!

 

"[...]the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes “Awww!”  - Kerouac

 

 

 

 




 

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