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onthewrittenroad

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28
Mar21

150 km depois

Joana C. C. Messias

Este é o relato de uma das minhas viagens, não de uma qualquer, mas da mais despreocupada de todas.

A começar pela preparação:

  • pegar num mapa, ver a distância a percorrer e o tempo do qual dispunha. Calculei que em cada dia conseguiria fazer, em média, 20km;
  • pegar num guia sobre o Caminho  (atenção que há dois anos guias práticos eram poucos!) e ver as diferentes etapas, para decidir o ponto de partida;
  • procurar os albergues de peregrinos e ter uma ideia sobre as suas localizações;
  • pegar numa mochila e colocar o mínimo e indispensável, duas (ou três) mudas de roupa, botas de caminhada e saco-cama (extremamente importante! Descobri só quando cheguei a Ponte de Lima.)
  • comprar um bilhete de comboio para o Porto, levantar a minha credencial de peregrino, junto à Sé do Porto e seguir viagem!

Munida de tudo o que era necessário, a minha chegada a Ponte de Lima foi interessante: ao final da tarde, atravessei a ponte e instalei-me no Albergue para peregrinos. Jantei na casa imediatamente à frente e ali encontrei o meu primeiro companheiro do Caminho (ainda não o sabíamos), um alemão  - o Roman, que se disponibilizou a traduzir a ementa que se encontrava em português 

                 Ponte de Lima - Rubiães:

Eram sete horas quando se começou a ouvir o restolhar de malas e os outros peregrinos a começarem a sua preparação. Eu calcei as botas e lá comecei esta aventura, com um dia de sol lindo. Ia dali para Rubiães.

As primeiras impressões foram extremamente positivas: a luz da manhã e a temperatura que se anunciava alta, faziam adivinhar um caminho tranquilo. Passei por várias propriedades, com as vinhas, atravessei estradas, cumprimentei bois e cheguei a Rubiães. Fui recebida por um pequena igreja, de S. Pedro de Rubiães, que serviu para me recordar do que  por ali andava a fazer e retornar uns quantos séculos atrás. Localizei o albergue, fiz o check-in, negociei para conseguir fazer o pagamento sem ter que ir até à povoação (depois de 18km, não me apetecia andar mais 4km!). Consegui, comi e fui dormir.

                 Rubiães - Tui:

Novamente, o despertar foi matutino, iniciar o dia cedo é como que estabelecer a energia para o resto do dia. Segui por antigas vias romanas, ouvi pequenas quedas de água e os passarinhos, até chegar a Valença. Percorri o interior da Fortaleza, que me recordou o quão próximo estava da fronteira. Depois de comer num pequeno restaurante, peguei na bagagem e fui em direção à fronteira, atravessei a ponte sobre o rio Minho e cheguei ao meu novo destino: Tui. O albergue está localizado num antigo edifício de pedra, instalei-me e rapidamente fui até ao centro, abastecer-me (comida, sempre importante!) e ver o movimento, na praça central. Encontrei vários peregrinos, nomeadamente o Roman e depois o Mark, ambos alemães, a viajarem sozinhos. Comemos na praça, uma espécie de picnic e fomos descansar.

                 Tui - Redondela:

Este dia foi diferente, o Mark seguiu esta etapa comigo, sabendo que cada um tem o seu ritmo e respeitando-nos. Isto é, o ritmo de cada um é o que dita o sucesso do caminho, sem pressas, sem incómodos, sem obrigações, mas ouvindo-nos e aquilo que as pernas são capazes de concretizar. Assim, ele seguiu mais à frente e eu um pouco mais atrás. Até que, olho para o lado, vejo um cavalo e alguém a fazer festas ao dito bicho - era o Roman. A partir daqui, aceitei que teria companhia para o percurso. E lá seguimos, cada um com as suas reflexões, a desfrutar do caminho, pelo meio da mata, com subidas e descidas, uma etapa dura, ao sol, pela estrada. E aparece Redondela. Os três instalamo-nos no albergue e rapidamente decidimos que iríamos até à praia, não muito longe. Chamamos um táxi, relaxamos na praia e terminamos num restaurante a comer marisco! 

                 Redondela - Pontevedra:

Confesso que deste dia pouco ficou registado na minha memória, mas recordo-me perfeitamente da entrada em Pontevedra. Em grande, um final de tarde, com calor. Desta vez, optei por não ficar no albergue, fui até uma pensão, no centro da cidade. Depois de descansar, segui até à Plaza de la Herreria e desfrutei de umas tapas, com companhia, música e todo aquele ambiente de festa, que se vive em Espanha, ao final de tarde, e que nos envolve e dá vontade de voltar!

                 Pontevedra - Caldas de Reyes:

A entrada em Caldas de Reyes foi interessante. Não sabia o que esperar, uns quantos edifícios abandonados, umas publicidades estranhas, até que atravessei a ponte e me embrenhei pela parte mais antiga. Ali aluguei rapidamente um apartamento, apanhei sol e fui com o Roman até ao restaurante próximo da ponte para mais umas tapas, com música ao vivo. Até cantaram "Cheira bem, cheira a Lisboooaaaa", uma verdadeira festa, regada com vinho, pimentos padrón, queijo e pão! 

                 Caldas de Reyes - Padrón:

Esta penúltima etapa foi mais fechada, habituamo-nos ao ritmo dos dias, ao percurso e a mente fica focada na chegada a Santiago. Foi sobretudo um período de reflexão, daquilo que pretendia mudar, do que me proporia a fazer dali para a frente. Assim, cheguei ao albergue e fui descansar imediatamente, para começar cedo a última etapa, no dia seguinte.

                 Padrón - Santiago:

O dia começou bastante cedo e, deste vez, comecei sozinha. Comi um croissant na tasca do Pepe e segui à beira da estrada até que o caminho passou a ser de terra. Confesso que o início do Camino, a paisagem foi muito mais prazerosa, no entanto a proximidade ao destino final valia tudo. A certo ponto começamos a ver as torres sineiras de Santiago e sabemos que estamos cada vez mais próximos. Após uns quantos enganos, ao entrar em Santiago, a vieira ou a seta amarela manteve-se até ao fim e chega-se à Plaza del Obradoiro e é o sentimento de missão cumprida (e comprida!), que fica espelhado na nossa memória e no sorriso:

 

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22
Fev21

O Caminho das Estrelas

Joana C. C. Messias

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O nome deste percurso é conhecido de muitos, afinal de contas as suas origens remontam à Idade Média, quando as grandes viagens demoravam vários dias, semanas, meses e a perseverança era a grande aliada de qualquer um que decidisse fazer-se à estrada.

Longe do conforto proporcionado pela vida de hoje, muitas das vezes o percurso incluía vários incómodos: o tempo, a pernoita, as informações sobre as direções a seguir. Embora, a partir do século XII, tenha surgido aquele que é considerado o primeiro guia de viagens - o Código Calistino.  

Nos tempos de hoje, dos vários livros sobre o caminho, aquele que surge entre os primeiros, é o de Paulo Coelho, O Diário de um Mago.

Nele, Paulo Coelho relata a sua viagem pelos 800 km, que percorrem o Caminho Francês de Santiago. Inicia o seu "Camino", no ponto onde várias rotas se encontram - Saint Jean Pied Port até Santiago de Compostela, mostra-nos os diferentes cenários, do norte de Espanha, impelindo a fazermo-nos à estrada. Contudo, das várias etapas do caminho, relata a verdadeira viagem que o percurso suscita: a interior. No caso de Paulo Coelho, a busca do contacto com uma sabedoria ancestral, com tradições, que o integram numa ordem. Ao longo do caminho,  são vários os exercícios que lhe são propostos e que lhe permitem percorrer e conhecer, gradativamente, o seu próprio caminho. 

Afinal, é esse o verdadeiro propósito de todos os que decidem olhar e seguir as estrelas.

Dentre as grandes sensações da minha vida, não posso me esquecer daquela primeira noite no Caminho de Santiago. Fazia frio, apesar do verão (...) Olhei para o céu e a Via Láctea se estendia sobre mim, mostrando o imenso caminho que devíamos cruzar. Outrora, esta imensidão me daria uma grande angústia, um medo terrível de que não seria capaz de conseguir, de que era pequeno demais para isto. Mas hoje eu era uma semente e tinha nascido de novo. Tinha descoberto que, apesar do conforto da terra e do sono que eu dormia, era muito mais bela a vida lá em cima. E eu podia nascer sempre quantas vezes quisesse, até que meus braços fossem suficientemente grandes para poder abraçar a terra de onde eu tinha vindo.

25
Jun20

7º de sete - Gastronomia

Joana C. C. Messias

As viagens não são só feitas de paisagem, monumentos e história.

Há que juntar os momentos que nelas experienciamos, para que  nos fiquem gravadas na memória. Uma das formas mais simples, para isso, é através da comida. Os produtos e sabores característicos de cada região, conferem-lhes um momento que dificilmente se repetirá noutro local.  Além disso, a proximidade com a terra, permite a obtenção de produtos de uma qualidade genuinamente superior, que se revelam no momento da degustação.

Tendo em conta os diferentes locais, deixo um apanhado de alguns dos pratos e produtos provados:

  1. Queijo Terrincho: este tipo de queijo é produzido com leite cru de ovelha Churra, caraterizando-se por possuir uma pasta dura a semi-dura, com uma cor branca a amarelada. O tempo de maturação é de 30 dias, sendo que o Terrincho Velho é até 90 dias. Este queijo destingue-se pelo modo como as ovelhas são criadas, em regime extensivo, nas pastagens da área montanhosa da Terra Quente. O produto obtido pesa cerca de 800 a 1200g, com 13 a 20 cm de diâmetro. O sabor, bem como o aroma são sobretudo suaves.
  2. Presunto de Chaves: o porco Bísaro é o utilizado, havendo todo um cuidado na preparação da carne durante a vida do animal. O corte da carne é particular, podendo-se distinguir por ter uma forma mais arredondada. No fumeiro, é colocado à parte de outros enchidos, para que não tenha um sabor em demasia, entre vários meses a um ano. O presunto que se obtém é pouco fibroso, macio, vendo-se a gordura brilhante, o que lhe confere um delicioso sabor.
  3. Posta Mirandesa: naco de carne de raça bovina mirandesa, cuja vida é passada nos lameiros, em altitudes superiores a 500m. A carne é cortada de forma singular, evitando os nervos, com uma altura de 2 a 3cm. Temperada com sal grosso, metida nas brasas até o suco começar a dar de si. Servida com batatas, da região (deliciosas!) e grelos.
  4. Pastel de Chaves: pastel em forma de meia-lua, feito com massa folhada, estaladiça, recheado com carne de vitela. A macieza da massa, bem como a qualidade da carne utilizada são vitais para a boa qualidade do pastel. 
  5. Covilhetes: aparentam ser empadinhas de carne. A massa é ligeiramente diferente do pastel anteriormente descrito, contendo menos humidade; o recheio é feito, essencialmente, com carne de vaca. Tem a particularidade de ser colocado no forno em barro negro de Bisalhães.
  6. Cristas de Galo: pastéis em forma de meia-lua, sendo uma parte recortada, fazendo lembrar a crista de um galo. O recheio é feito com açúcar, amêndoa, toucinho, ovos, maçã ácida e canela.

Acrescentem à entrada, um bom pão de centeio, com o azeite da região, um bom vinho e garanto que quererão voltar! 

 

24
Jun20

6º de Sete - Chaves

Joana C. C. Messias

 

A Chaves chega-se através da "interessante" (na realidade, não podia ter mais curvas!) EN103, vindo de Bragança e o panorama não podia ser mais bonito: um céu rosa, de fim de tarde, com o vale do Tâmega a abrir-se adiante.

A cidade tem, também ela, qualquer coisa. O seu centro histórico organizado, consegue conciliar a modernidade dos tempos, com a manutenção do património histórico.

Por este motivo, ainda que disfarçada sobre a aparência da contemporaneidade, as fundações da cidade remontam ao período da romanização, que permitiriam a fixação de população e o desenvolvimento do local que hoje conhecemos.

 

Aquae Flaviae, localizada nas margens do rio Tâmega e no fértil vale deste mesmo rio, reunia as condições ideais para a fixação de um povoado, rodeada por algum relevo, que permitia a construção de pequenos oppidums para vigia dos arredores. As infra-estruturas criadas procuraram integrar a cidade no Império Romano, nomeadamente com a criação de uma estrada romana, que ligava Bracara a Astorica. Foi para dar continuidade a este percurso que a ponte foi erguida, na transição do século I para o II, durante o período do imperador Trajano (98 -117 d. C.). A estrutura tinha mais arcos do que os que estão à vista, contudo a passagem do tempo, bem como a realização de obras (as últimas das quais na década de 30), conferiram-lhe o aspeto que hoje tem.

Não muito distante da ponte, encontra-se a zona das termas, criadas para aproveitamento das águas quentes das Caldas de Chaves, fundadas na época de Vespasiano (69 - 79 d. C.). A propósito do aproveitamento dos efeitos medicinais destas águas, Aquae Flaviae é fundada. Hoje, é possível visitar o Museu das Termas Romanas.

Percorrendo o centro histórico, percebem-se ainda vestígios do traçado medieval. As ruas são estreitas e entrecruzam-se, ladeadas com casinhas de dois pisos, umas juntas às outras, sendo o piso superior composto por uma pequena varanda, muitas das vezes decorada com flores. Os pisos inferiores, muitos deles, foram reaproveitados e estão ocupados com comércio. 

No cimo da Rua Direita, a Igreja de Santa Maria Maior. Crê-se que o edifício tenha sido edificado após a conquista de Chaves em 1160, por dois cavaleiros - Rui e Garcia Lopes, aos mouros. Assim, caracteriza-se pelo estilo românico, característico do século XII. Várias intervenções ocorreram, nomeadamente durante o reinado de D. João III, já no século XVI, conferindo-lhe o aspeto que hoje tem, com o seu pórtico renascentista (vendo-se ao lado esquerdo o pórtico românico).

Na Praça Camões, que se abre diante da Igreja de Santa Maria Maior, são vários os locais que merecem ser explorados: a Igreja da Misericórdia, do século XVIII; o Museu da Região Flaviense; a Câmara Municipal. Por trás do Museu, destaca-se a torre do Castelo de Chaves. 

Do castelo, resta apenas a Torre de Menagem, que pelo aspeto e os diferentes vestígios permitem reconhecer os trabalhos desenvolvidos durante o reinado de D. Dinis, quando Chaves detinha uma posição vital para a defesa do território nacional e as condições para que uma comunidade forte se tivesse desenvolvido. Daquele local, avista-se todo o vale de Chaves.

21
Jun20

5º de Sete - Bragança: Museu Abade de Baçal

Joana C. C. Messias

De visita a Bragança, além de percorrer o centro histórico, tive a oportunidade de conhecer o Museu Abade de Baçal, tal qual quem me guiou até lá: Saramago.

O museu encontra-se no mesmo sitio, no entanto, a coleção, exposição e curadoria alteraram-se ligeiramente. 

Comecemos do início: o edifício escolhido para expôr a coleção é o antigo Paço Episcopal, edifício do século XVIII, com introdução de algumas alterações no espaço, aberto ao público no ano de 1915 e o nome pelo qual é hoje conhecido - Abade de Baçal - , refere-se ao padre Francisco Alves, cuja recolha de património e história do concelho culminou com a inauguração do museu regional.

Atualmente, no primeiro piso, encontra-se uma exposição dedicada ao concelho de Bragança, com fotos de Duarte Belo, referentes a uma recolha fotográfica efetuada para a Expo 98´,  para o pavilhão de Portugal.

Na sala seguinte,  além de objetos e documentos relativos a Trás-os-Montes, destacam-se obras de Alfredo Sousa, com representações em aguarela de pelourinhos do concelho de Bragança.

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Pelourinho de Bragança, 1937 | Alberto Sousa | Papel e Aguarela

Passando ao espaço seguinte, inicia-se a exposição permanente: no primeiro piso, os berrões de um lado, do período da romanização as aras votivas, estelas funerárias, marcos miliários, cerâmicas; no segundo piso, expostas em várias salas, a temática toca na numismática, escultura, mobiliário, porcelana e faiança, pintura.

Da variedade de peças e obras expostas, destaco três quadros, que me chamaram a atenção:

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Provocando, 1914 | José Malhoa | Óleo sobre tela

Estava despreocupadamente a dar a volta pela zona relativa à pintura contemporânea, quando me encontro com esta senhora!

"Provocando" é o nome da obra realizada por José Malhoa, conhecido como o pai do naturalismo português e pelas suas obras associadas aos costumes e tradições portugueses (basta recordar o célebre "Fado"!).

Embora avesso à modernidade, como conhecido, esta obra representa um paradoxo: a reprovação de quem a pinta ao cosmopolitismo burguês, nela representado. Ao centro, a figura a três quartos de uma senhora, de olhar semi-cerrado, com os ombros desnudos. Na mão direita segura algo. A contrastar com a cor pálida da pele, o vestido negro, sobre o peito e o fundo escuro, com tons avermelhados.

A obra pertencia ao MNAC, ao qual foi doada, mas foi "temporariamente" depositada no Museu Abade de Baçal. 

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Penedo Amarelo - Miranda do Douro,1935 | Joaquim Francisco Lopes | Óleo sobre tela

Depois de ter estado em Miranda do Douro, esta obra chamou-me. 

Ao fundo, a representação das arribas do Douro, em tons terra, que permitem que as duas figuras, em tons mais escuros, sobressaiam do lado direito. Ambas com as Capas de Honra, peça de vestuário que estaria associada aos hábito dos monges beniditinos, utilizada pelos pastores e, a partir do século XIX, torna-se uma peça de destaque, utilizada em cerimónias nas Terras de Miranda e também em Leão. Hoje em dia, honram quem se recebe, com elas vestidas. O material utilizado era o burel, para que ajudasse a suportar as temperaturas baixas, hoje em dia além de ser mais leve, tem também alguns adornos.

A representação é feita por Joaquim Lopes, artista portuense, que passou por Paris. A presente obra terá sido realizada após uma Campanha Artística, que decorreu em Bragança, em 1934.

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Cena de Interior de Armazém, século XX | Abel Salazar | Óleo sobre tela

À primeira vista, esta é uma obra literalmente cinzenta e triste. Mas habituando-se a visão aos tons, podem-se distinguir várias figuras, em movimentos, duas num plano dianteiro e outras mais atrás. Todas elas concentradas na tarefa que desempenham. O cromatismo utilizado pouco varia, mantendo-se nos tons cinza, castanhos pálidos, brancos e beges, o que contribui para o peso que a cena transmite. Além disso, as figuras aparecem consoante a direção e a cor aplicada, na pincelada. É uma obra complexa e que, por isso, merece atenção.

Abel Salazar foi uma interessante figura que se destacou pelas suas descobertas associadas à Medicina, pelos estudos filosóficos que desenvolveu, pelas suas obras e pela sua posição política, contra o regime que vigorava, o que terá contribuído para criar alguma dificuldade no seu trabalho, enquanto artista. 

Além da belíssima coleção de arte contemporânea portuguesa, importa salientar a existência de uma sala com cerca de 70 desenhos de Almada Negreiros.

Estas foram as obras, do núcleo da pintura contemporânea que se "insinuaram", enquanto visitava o espaço. No entanto o espólio reunido, bem como a curadoria do espaço está muito bem conseguida. É um museu, decerto com muito mais obras a expôr, mas que optou por uma quantidade acertada e espaçada, sem massacrar o visitante, que é capaz de prestar atenção individualmente a cada uma das peças e eleger as temáticas que mais interesse lhe despertam, sempre com bons exemplos.

 

 

 

 

21
Jun20

4º de Sete - Murça

Joana C. C. Messias

Certamente que ao mencionar-se Murça, imediatamente vem à mente o conhecido nome "Porca de Murça", referente ao vinho ali produzido. E isso bastaria para ser considerada uma das (minhas) sete maravilhas transmontanas.

Mas não! Vou até Murça, porque de uma forma descomplicada, através de uma lenda, pode-se entender a ligação telúrica que percorre toda a região.

Conta-se que na Idade Média, um porco, maior do que tantos outros, tomava de assalto a povoação, comendo e roubando tudo o que podia, não se deixando apanhar. Até que um fidalgo, conseguiu capturá-lo, pondo fim ao medo que todos tinham do animal.

Ora, o facto é que, lendas à parte, esta è uma figura que se encontra presente em vários locais do nordeste de Portugal e está associado a um culto que remonta à ocupação de tribos pré-célticas - os Vetões e Draganos, presentes nos territórios correspondentes a Trás-os-Montes, Beira Alta e regiões de Espanha.

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O nome berrão refere-se aos porcos não castrados, geralmente, pertencentes a uma aldeia e que estavam encarregues da cobrição. São várias as lendas que se referem a estas figuras, pelas variadíssimas esculturas que foram encontradas ao longo do século XX, pelos territórios já mencionados. 

A figura em si, é esculpida num bloco único de granito, com o focinho e o órgão sexual a destacarem-se, com as quatro patas paralelas. São, naturalmente, figuras toscas, atestando não só a sua idade (podendo remontar à Idade do Ferro.), mas também à dificuldade de trabalho do material em questão. Pelo nome, assume-se que a representação se referia ao porco de cobrição, das aldeias, no entanto estudos revelam que poderia ser um javali, touro ou até um urso.

Várias são as interpretações destas figuras, não só pelos diferentes contextos em que são encontradas, mas também pelos diferentes detalhes que por vezes apresentam. 

Os berrões seriam colocados na entrada dos castros, para proteção dos locais, funcionando como deidades, que tinham o poder de afastar o mal; noutros casos, serviriam como símbolos de demarcação de territórios; e, por último, reforçando a sua função protetora, como figuras que protegiam o gado, nos pastos. Mais tarde, foram adaptadas e,  por vezes, encontram-se associadas à administração do poder local, ocupando locais de destaque, nas praças centrais ou estando anexadas aos pelourinhos (caso de Bragança).

Ao todo, em Portugal, foram localizados cerca de 74 destas peças, algumas delas encontram-se hoje em museus, outras estão expostas em locais centrais, sendo o caso de Murça e, dos locais visitados, também Bragança, onde o berrão está incluído no pelourinho. 

Independentemente dos significados que lhe foram atribuídos, com o passar dos séculos, o facto é que o porco/javali/touro/urso contribuiu para o reforço da identidade das comunidades que se juntam à sua volta e reforçando o sentido de unidade dos lugares.

 

 

 

 

 

 

 

11
Jun20

3º de Sete - Mirandela

Joana C. C. Messias

Mirandela é bela, mas Mirandela não pára!

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Na realidade, podia ter escolhido outro ponto transmontano, uma vez que o motivo para destacar Mirandela está diretamente relacionado com um pecado: a gula. 

Por toda a região de Trás-os-Montes, os enchidos de fumeiro são conhecidos. A tradição relacionada com a sua produção remonta a tempos primitivos, quando o Homem desenvolveu diversas técnicas que permitiam a conservação da carne durante um longo período de tempo. Carne essa proveniente sobretudo do porco, na época do Natal ou por Janeiro, quando o frio colaborava com o arranjo da carne e permitia a produção, artesanal, de vários enchidos. Hoje em dia, o destaque vai para o Presunto de Chaves, a Chouriça de Vinhais, Alheira do Barroso, Butelo, Morcela, Salpicão...

A lista é vasta e os sabores são muitos. No entanto, a criação da alheira insere-se num contexto histórico mais complexo. 

Durante o século XV, a tumultuosa relação entre o rei e os judeus que habitavam na Península Ibérica, teve o seu auge, quando em 1496, D. Manuel I obriga à conversão de todos os judeus ao catolicismo. Muitos foram os que, apesar do batismo, se mantiveram fiéis à Lei de Moisés. Os Criptojudeus ou Cristãos - novos, mantiveram em segredo as suas tradições, nomeadamente as que diziam respeito à dieta.

Pelos Livros Levítico  e Deuterónimos, a dieta kosher proíbe o consumo de alguns alimentos, como o da carne de porco. Ora sendo tradição secular, conforme referido acima, o abate do porco e aproveitamento da sua carne para os enchidos, foi necessário encontrar uma solução, para que os vizinhos não os denunciassem. É, deste modo, que criam uma receita à base de carne de aves, pão e especiarias, que pela aparência se assemelha a um enchido de porco. 

Assim, caso fossem alvo de alguma acusação, por parte dos vizinhos, estando os seus costumes de acordo com os dos restantes, não poderia ser através da sua dieta que levantariam suspeitas.

Importa salientar que, a instauração da Inquisição em Espanha, levou à fuga de muitos judeus para o território português, sobretudo durante o reinado de D. João II. Estes acabariam por se instalar nas regiões de fronteira, como Trás-os-Montes, as Beiras e o Alentejo.

No entanto, Mirandela é mais do que o conhecido local de produção das Alheiras. Ali encontramos a ponte que atravessa o rio Tua e nos leva até ao imponente solar, outrora pertencente à família dos Távoras. Mas esta é outra história, fica para depois.

Além dos enchidos, ali encontram-se tantos outros produtos que são provenientes da região: as amêndoas (outra maravilha, visitar Trás-os-montes, na época das amendoeiras em flor!), os figos, as castanhas, o queijo, o vinho. Devido à concentração de todos estes produtos em Mirandela, cria-se uma via que permite o escoamento dos mesmos até à foz do Douro, no final do século XIX e mais tarde prolongada até Bragança. É a Linha do Tua, que está a aguardar a sua reactivação.

 

07
Jun20

2º de Sete - Rio de Onor

Joana C. C. Messias

Ai, como eu queria chegar a Rio de Onor!

Não pensem que são demasiadas horas, estando por Bragança, cerca de 30 minutos são suficientes para viajar no tempo e aterrar nesta aldeia. Considerada recentemente como uma das Sete Aldeias Maravilha de Portugal e localizada no Parque Natural de Montesinho, o seu isolamento pode ser visto como uma desvantagem, por alguns, no entanto a preservação de várias características que a distinguem, revelam o contrário.

2. Rio de Onor

 

A aldeia de Rio de Onor tem várias particularidades, que a tornam única.

A primeira o ser atravessada pela fronteira, com Espanha, denominando-se o lado espanhol de Rihonor de Castilla (embora esteja localizado na região de Leão), distinguido os habitantes os dois lados como "povo de acima" e "povo de abaixo".

A segunda, prende-se com o sistema que vigora: o comunitarismo. As raízes do mesmo remontam, provavelmente, ao período celta, tendo-se mantido ao longo dos tempos, em grande parte devido ao isolamento a que a aldeia está votada. Através do comunitarismo agro-pastoril (estudado por Jorge Dias, na década de 50) organizam-se as terras - faceira, como é designada - distribuindo-as por todos, sendo trabalhada segundo uma ordem, por aqueles que foram nomeados para o efeito, através da Vara da Justiça; o rebanho comunitário era comum ver-se regressar ao final de cada dia, acompanhado pelas gentes da aldeia; o touro da aldeia, hoje existindo apenas menção à "Casa do Touro", um espaço cultural que divulga as tradições; o forno de lenha, utilizado por todos; a existência de um grupo de habitantes, pertencentes à Vara da Justiça, responsáveis por decidir os destinos da aldeia. No fundo, esta era uma organização que visava o bom funcionamento da aldeia, de igual forma para todos, tendo em vista a auto-suficiência, através da distribuição de esforços e partilha dos poucos bens existentes.

Além do comunitarismo, o aspeto da aldeia destaca-se. São casinhas feitas de xisto escuro, com dois pisos. O piso inferior, onde se mantinham os animais e o que era colhido da terra e, o piso supeior, destinado a habitação da família. Hoje em dia,o aspeto mantêm-se, as casas distribuem-se numa e noutra margem do rio, que dá o nome à povoação. Distinta é também a igreja matriz, dedicada a S. João Batista, com o costumado aspeto transmontano, cuja fachada é encimada por uma torre sineira. Mais adiante, no "povo de acima", uma igreja de características semalhantes, no entanto pertencente à parte espanhola.

A frescura e o som da água a correr funcionam como efeito criador de um espaço verdadeiramente tranquilo, onde o ritmo é coordenado pela luz do sol.

 

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